terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Você está preparado para a chegada do colapso econômico e da nova Grande Depressão?

“Já é matematicamente impossível liquidar a dívida nacional dos EUA”. Quem argumenta é o site The Economic Collapse*, especializado em economia: “Se o governo dos EUA tomasse todos os dólares, centavo a centavo, de todos os bancos, negócios e contribuintes, ainda assim não seria capaz de liquidar a dívida nacional. E se assim fizesse, obviamente a sociedade estadunidense cessaria de funcionar porque ninguém teria mais dinheiro para comprar ou vender fosse o que fosse”.

O site também revela que não é o governo dos EUA quem emite a divisa (quem imprime seu dinheiro), “quem o faz é o Federal Reserve”. E explica que o Federal Reserve é um banco privado, portanto com o objetivo de lucro, instituído e operado por um grupo muito poderoso da elite dos banqueiros internacionais (“homens brancos de olhos azuis”, diríamos em boa alegoria). Basta darmos uma olhadela numa nota de dólar para vermos que se trata de uma “Federal Reserve Note”, pertence, portanto, aos donos do Federal Reserve.

Mais: se os EUA precisarem tomar mais dinheiro emprestado pedem ao Federal Reserve que imprimam mais pedaços de papel verde, chamados “US dollars”, a serem trocados por papéis de cor rosa, chamados de “Títulos do Tesouro dos EUA”, que aumentam o capital dos banqueiros. Assim, o governo coloca mais dólares em circulação ao tempo em que amplia sua dívida e os respectivos juros. E a dívida nacional já atinge hoje os US$ 12 trilhões, diante de um “patrimônio” – todo o dinheiro existente nos Estados Unidos – de US$ 14 trilhões.

Grande parte é dinheiro fantasma: O “patrimônio” leva em consideração o total de notas fiscais, o dinheiro dos cofres dos bancos e seus depósitos nos bancos de reserva, ordens bancárias, travelers checks, outras contas de poupança, contas do mercado monetário, dos fundos mútuos, depósitos a prazo de pequenos valores, e outros. “Dinheiro” que “nem sempre existe”, segundo os economistas do The Economic Collapse, culpa de uma tal “reserva fracionária da banca”. Ou seja, os bancos “multiplicam” as quantias neles depositadas e o dinheiro assim “multiplicado” é apenas papel. Não existe.

Assim, se todo o dinheiro possuído por todos os bancos, pelos negócios e pelos indivíduos dos Estados Unidos fosse totalmente reunido e enviado ao governo, não seria suficiente para liquidar sua dívida nacional. O único meio de fazer mais dinheiro é fazer ainda mais dívida, o que torna o problema ainda pior. É que, segundo a análise do The Economic Collapse, “todo o Sistema Federal de Reserva foi concebido para (...) vagarosamente drenar a riqueza maciça do povo e transferi-la para a elite dos banqueiros internacionais”.

E nós, brasileiros, que temos a ver com isso? Primeiro: uma recessão nos EUA arrasta outros países, como o nosso, que depende em grande parte do poder de compra e das boas condições de venda, enfim, da saúde da economia daquele país. Segundo: há uma tendência política muito forte das nossas instituições de se espelhar nos modelos institucionais dos EUA. Quem não sabe que querem nosso Banco Central independente do governo e dependente do “mercado”, portanto atrelado aos interesses dos grandes banqueiros internacionais.

Para The Economic Collapse, nada mais atual que a profecia de Thomas Jefferson, um dos fundadores da nação estadunidense: "Se o povo alguma vez permitir aos bancos privados que controlem a emissão do seu dinheiro, primeiro pela inflação e depois pela deflação, os bancos e corporações que crescerão em tornos deles (dos bancos) privarão o povo da sua propriedade até que os seus filhos acordem sem lar...”. Um retrato da atual crise.

Não é sem razão que o Brasil tem diversificado suas relações mundo afora, contrariando nossos para sempre colonizados oposicionistas. Não é sem razão que nossa pátria desponta com diretores de fundos internacionais preferindo “títulos do Brasil e moeda da China”, pela "expectativa de que vão sobrepujar as economias desenvolvidas em riqueza” e pela postura de "falcão" do Banco Central. Tampouco falta razão à London School of Economics em saudar a criação do G20, porque países como China, Índia e Brasil "agora formam uma parte imensamente importante da economia global".

(*) Artigo original está em: theeconomiccollapseblog.com

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

As vivandeiras do ditador

"Não queremos sangrar feridas antigas. Queremos
que cicatrizem. E só feridas bem lavadas cicatrizam".
Michele Bachelet

FHC costuma pedir que esqueçamos o que ele escreveu. É, no entanto, o que ele escreveu que lhe garante ainda algum prestígio em certas rodas internacionais desatualizadas. Agora, ele pede que esqueçamos que foi no seu governo que se concretizou a responsabilização do estado brasileiro pelos crimes de lesa humanidade praticados pela ditadura. E passa a criticar o Programa Nacional de Direitos Humanos. Para Elio Gaspari¹, trata-se de uma maliciosa expectativa, uma “sedução tucana pelo flerte com a figura abstrata dos militares aborrecidos com a idéia”.

A vivandagem tucana é assinalada por Gaspari na frase dita pelo ex-presidente em recente entrevista ao repórter Gary Duffy: “"Este não é um assunto político no Brasil, mas uma questão de direitos humanos, o que para mim é importante, mas o perigo é transformar isso em um assunto político". Apimentando mais o caldo, FHC afirmou ainda que a iniciativa de investigar os crimes do Estado são um fator de "intranquilidade entre as Forças Armadas".

A vivandagem, conforme identificou o primeiro ditador, Marechal Castelo Branco, remonta aos idos de 30, “vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar". Eram os políticos que iam aos quartéis conchavar com os milicos. O estilo Carlos Lacerda, agora revivido pelo tucanato.

Na contramão da sedução tucana pelo oportunismo golpista e encarando o mérito da questão, manifesta-se o ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos, professor Paulo Sérgio Pinheiro², que no governo FHC formulou o segundo Plano Nacional de Direitos Humanos. Ele assinala que nem os atuais militares da ativa na Grécia, na Espanha, em Portugal, na Argentina, no Chile, no Uruguai se solidarizaram com seus antecessores que perpetraram torturas e crimes contra a humanidade. E que nem por isso os exércitos desses países deixaram de se fortalecer na democracia que sucedeu suas ditaduras.

Por isso, o professor considera constrangedor o recuo do governo em retirar da Comissão da Verdade a expressão “repressão política”. Afinal, desde 1995 “ficou patente a responsabilidade incontestável do Estado brasileiro pelas violações de direitos humanos perpetrados pela ditadura militar”, como reconheceu a lei 9.140/95, a lei dos desaparecidos”. Para Pinheiro, "examinar as violações de direitos humanos", da nova formulação, não é o mesmo que "esclarecimento público das violações de direitos humanos praticadas no contexto da repressão política". “Retrocede em relação ao reconhecimento da responsabilidade do Estado pelos crimes da ditadura” diz o professor.

Paulo Sérgio Pinheiro lembra ainda que não há do “outro lado” vítimas de crimes de lesa humanidade e que os militantes da resistência contra a ditadura figuram entre os presos, sequestrados, interrogados, torturados. Os que sobreviveram foram processados e julgados por uma legalidade autoritária construídas por atos institucionais e pela legislação da “segurança nacional”. Em 15 anos, 2.828 réus civis foram condenados pela justiça de exceção dos tribunais militares. Com o recuo, diz o professor, “o Brasil continuará na rabeira de todos nossos vizinhos do Cone Sul que reconstituíram a história dos horrores e já se livraram das trevas das ditaduras”.
_____________________________________________________________ (1) http://www.google.com/notebook/?hl=pt-BR#b=BDRTCSgoQoLboveIk
(2) http://www.google.com/notebook/?hl=pt-BR#b=BDQt4SgoQ2cWB7eYk

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um país acorrentado

Por que o jornalista brasileiro ainda hoje se surpreende quando a comunidade internacional suspeita da “ajuda” de Washington ao Haiti? Generosa ajuda de quase 20 mil homens, com equipamentos bélicos pesados. Dez vezes maior que a atual força internacional da ONU comandada pelo Brasil. Grandes helicópteros a pousar emblematicamente nos jardins do palácio presidencial haitiano.

Ingenuidade? Ignorância? Melhor apostar em submissão cultural do eterno colonizado. Ou o jornalista não tem a obrigação de saber do que houve na Coréia, no Vietnã, no Iraque, no Paquistão, no Afeganistão? E, antes, e bem antes, no próprio Haiti? E o porquê do país ser o mais pobre do planeta?

É Eduardo Galeano, profundo conhecedor das veias ainda abertas na América Latina, quem reaviva nossa memória. (http://resistir.info/galeano/haiti_18jan10.html).

ANTES. “A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto”.

(...) “Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder”. (...) “...cada vez que Préval (substituto de Aristide), ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe: – Recite a lição”. A lição: “é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo”. (...)

“Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. (Deixaram-lhe sucessivos ditadores fieis a Washington). Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". (...)

BEM ANTES. “Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda surra nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores”.

“A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia”.

Hoje, o Haiti entra para o rol dos países em reconstrução, mais uma mina de ouro a ser entregue aos donos do capital, a exemplo da ex-Iugoslávia, do Iraque, do Paquistão, do Afeganistão. Funciona mais ou menos assim: 1. As tropas invadem o país e destroem toda sua infra-estrutura (melhor se a infra-estrutura já estiver destruída, como no caso do Haiti). 2. O FMI (leia-se Washington) garante o empréstimo de centenas de milhões de dólares. 3. As tropas de ocupação garantem as instalações das empresas dos EUA que participarão da reconstrução e da recondução dos dólares ao seu país. Fica a dívida. 4. As tropas de ocupação deixarão o país quando a dívida for paga: nunca.

O jornalista brasileiro deveria saber um pouco mais. Ou sabe de tudo?

sábado, 16 de janeiro de 2010

O amargo sabor do lúpulo

ilustração: Dom Quixote, de Salvador Dali

Vésperas do último Natal. O físico Rogério Cezar Cerqueira Leite denunciou uma grave malandragem da cervejaria brasileira: a substituição do tradicional malte, a cevada germinada, usado nas boas cervejarias mundiais, por outros cereais germinados mais baratos. A manobra é encoberta no rótulo pelo uso do termo “cereais maltados”, ou, pior, “malte”, para designar outros cereais envolvidos. (Folha de S Paulo, 18/12/2009).

Outra preocupação do professor emérito da Unicamp é com a utilização de lúpulo de qualidade inferior, mais barato. O lúpulo de boa qualidade é responsável pela conservação e pelas qualidades de paladar da bebida mais popular. O uso do lúpulo inferior prejudica o sabor e exige a adição de conservantes químicos. Para Cerqueira Leite, a malandragem das nossas principais cervejarias conta com a omissão das autoridades brasileiras que assim permitem “que o cidadão brasileiro beba gato por lebre”.

Vésperas do Reveillon. O químico Silvio Luiz Reichert, diretor da Anheuser-Busch Inbev, proprietária da AmBev, afirma que “A indústria brasileira de cerveja zela pela qualidade de seu produto. Ela sabe que seu consumidor é exigente e tem muito bom gosto”. E que o emérito professor lançara mão “de argumentos ora incorretos, ora infundados, mas sempre injustos”. “Números errados e premissas levianas”, acusa Reichert. (Folha de S Paulo, 30/12/2009).

Segundo o representante da Anheuser-Busch Inbev, a cervejaria brasileira usa a percentagem de malte (cevada submetida a processo controlado de germinação) e dos demais cereais nos limites da legislação brasileira. “Mais malte é igual a cerveja mais encorpada e mais pesada; menos malte (...) é igual a cerveja leve, refrescante, suave”, argumenta Reichert. Acrescenta que tanto o lúpulo quanto 65% ou mais da cevada que utiliza são importados de centros produtores de qualidade, dos EUA e da Europa. E que não usa conservantes, pela boa qualidade do lúpulo e por impedimento legal.

Nesta quinta-feira, o físico Cerqueira Leite volta ao assunto e à carga. Quer saber o emérito professor do “engodo de que foi vítima o governo e o povo brasileiro pela fusão Antártica-Brahma, quebrando princípios e a legislação contra a formação de cartéis. Com a desculpa de que, fundidas, poderiam enfrentar a competição com multinacionais – para ser o cartel, em seguida, absorvido por empresa estrangeira”. Também quer saber sobre a perversa prática de coação a cervejarias nascentes, para absorvê-las e aniquilá-las ou também banalizar a qualidade de seus produtos. (Folha de S Paulo, 14/01/2010).

Cerqueira Leite acusa Reichert de usar de mentira, eufemismo e sofisma em suas argumentações para esconder o fato de que a AmBev usa mais o milho do que a cevada por causa do seu superior grau de conversão em álcool. E de usar de embuste para negar o uso de conservante em suas cervejas. Sobre o uso de lúpulo de boa qualidade, pergunta o professor da Unicamp: “Por que as cervejas belgas, inglesas e alemãs que usam lúpulo de boa qualidade não precisam de antioxidantes e estabilizantes?”

O que mais chama a atenção é o fato de que essa polêmica, que interessa a todos os brasileiros, mesmo aos que não bebem cerveja, não tem a menor repercussão na grande imprensa nacional. Como não tem repercussão a questão do uso dos transgênicos. E como não tem repercussão a questão progressiva do ganho de peso excessivo pela população brasileira pelo uso incorreto da alimentação. Do lado dos que defendem a “livre iniciativa empresarial” está um poderoso lobby do setor de comunicação, mídia e propaganda, que dá a linha do consumismo sem porteira.

Quem poderia contrariar a Ambev, a Monsanto, a Perdigão? Os patrocinadores, das TVs e dos jornalões? O alerta quixotesco do professor Cerqueira Leite descortina o baixo nível ético que envolve o setor cervejeiro: “abuso repugnante (...) a AmBev elabora suas indecorosas propagandas televisivas, que induzem o cidadão desavisado a consumir suas cervejas pela associação com objetos de desejos primitivos: carros de luxo, mulheres seminuas (...) promessa de sucesso.”

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

LULA - O Filho do Brasil - Trailer

Lula, o Filho do Brasil
A história de um homem comum, sua família e a extraordinária capacidade de superar dificuldades.
Com direção de Fábio Barreto (O Quatrilho), e baseado no livro homônimo de Denise Paraná, Lula, o Filho do Brasil traz para as telas o percurso de Luiz Inácio Lula da Silva, do seu nascimento, em 1945, até 1980, quando era um líder sindical consagrado. A data marca também a morte de uma pessoa extremamente influente em sua vida e em sua forma de pensar: Dona Lindu (Eurídice Ferreira de Mello), que criou oito filhos, sozinha, e tinha como lema "Nesta família ninguém vai ser ladrão ou prostituta". E cumpriu.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A quinta economia do mundo?

Kenneth Maxwell é professor do Departamento de História e diretor do Programa de Estudos Brasileiros do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Harvard. Um dos mais importantes brasilianistas da atualidade. Em sua coluna semanal da Folha de S Paulo, em 24/12/2009, o historiador britânico fez um insuspeito balanço da década que se finda. “Um bom momento para refletir sobre o que ocorreu e o que pode vir a ocorrer, especialmente para o Brasil”, avalia Maxwell.

Recorda o professor que ao final de 1999 as perspectivas (para o mundo ocidental) pareciam otimistas: O fim da Guerra Fria. O colapso da União Soviética. A internet triunfando sobre as últimas fronteiras. Os EUA, o protagonista da História.

Em março de 2000, porém, uma surpresa: a explosão da bolha da internet destrói trilhões de dólares em patrimônio. Em setembro de 2001, outra explosão: as torres gêmeas do World Trade Center. Era a evidência do surgimento de um novo mundo ainda mais vulnerável. Os Estados Unidos a patrocinar mais duas guerras, com envolvimento de mais de 200 mil soldados.

Nesse cenário, “a última década presenciou mudanças importantes na distribuição de poder e riqueza”, diz o brasilianista. A China hoje responde por 4 das 25 maiores empresas mundiais. Era nenhuma uma década atrás. O Brasil responde por uma, Petrobras em nono lugar. Hoje estão fora 17 das 25 empresas que formavam o ranking em 1999.

“O Brasil encerra a década bem posicionado para o futuro. A recessão mundial demorou mais a começar e acabou mais rápido no Brasil do que em outros países. Uma gestão prudente da política fiscal, nascida de amargas experiências passadas, (...) O Brasil continua a desenvolver novas parcerias no comércio mundial. O país sustenta uma economia vibrante e uma classe média em expansão. Na véspera do Natal de 2009, os brasileiros deveriam comemorar o fato de que tenham avançado tanto e de que um futuro promissor esteja ao seu alcance”, completou Kenneth Maxwell.

Sua análise é menos entusiasmada que a do ex-presidente Sarney, para quem: “2010 fecha um ciclo para o Brasil, dos 120 anos da República, governado por um operário que encerra a década escolhido o "Homem do Ano" pelos grandes jornais do mundo, pela sua atividade internacional, por ter o Brasil mudado de patamar, ser credor do FMI, com reservas de mais de US$ 200 bilhões, estabilidade interna, diminuição da pobreza e do desemprego, distribuição de renda, além de protagonismo na discussão e na solução dos grandes temas mundiais” (Folha de S Paulo, 1º de janeiro de 2010).

Na última segunda-feira (04/01), o deputado Ricardo Berzoini, também na Folha, lembrou que não somente a expressiva maioria da população brasileira como também da comunidade internacional reconhecem a competência brasileira na superação dos reflexos da crise que abalou o mundo e ainda ronda muitas nações. “Fechando 2009 com a criação de 1,4 milhão de empregos e a adoção de medidas que possibilitaram o Brasil retomar a trilha do crescimento sustentável”.

Diante de incontestes avanços, soa um tanto ultrapassada a postura oposicionista, repercutida e ampliada por conhecidos setores da mídia nacional, que propõe uma atitude de baixa auto-estima. Vã tentativa de revigorar nosso velho complexo de vira-latas. A disseminação de mitos macaqueados pela falta de apuração da imprensa e aceitos pela leitura acrítica e apressada. É como desfilam pelos jornalões os “gastos” do governo, o “deficit” da Previdência, os juros e a carga tributária “mais altos do mundo”.

Preferível discutir, como propõem Kenneth Maxwell e, hoje (8/01/2009), a agencia Reuters – sempre a imprensa estrangeira superando a nossa – um rascunho de proposta para colocar o Brasil na posição de quinta economia do mundo. Estamos prontos para isso.
foto: revista Hitória (Ken)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os sapatos de William Bonner

William Bonner, do Jornal Nacional, costuma dizer que todas as noites sua equipe tenta colocar um elefante dentro de uma caixa de sapatos. Sempre conseguem. Trata-se da configuração do jornal de maior audiência na TV brasileira. Significa que grande quantidade das notícias produzidas é jogada na lata do lixo e outras tantas somente são divulgadas após lapidar edição que envolve a escolha de enquadramentos, incidências e aparas. Por ficarem de fora, não serão discutidas pelo público: o “lixo”, outros enquadramentos, outras incidências, outras maneiras de ver e de apresentar os temas.

É o que se denomina agendamento (agenda setting), teoria bastante conhecida em todo o mundo por qualquer estudante de comunicação, desde os anos 70, que revela como os meios de comunicação determinam a pauta (agenda) para a opinião pública. Ou seja, resolvem o que e de que forma – de que ângulo, de que ponto de vista, sob que aspecto ou profundidade – nós, indefesos leitores/ouvintes, devemos discutir a história de cada dia. Pois, para muitos, o que não deu no Jornal Nacional, a caixa de sapatos de Bonner, não aconteceu.

Tem-se no agendamento o instrumento de impor ao leitor/ouvinte uma carga de opiniões político-ideológicas ou culturais que interessam às instâncias de poder vinculadas aos donos do veículo de comunicação. Dito de outra forma, a linha ideológica nasce de modo “espontâneo”, das necessidades dos profissionais da comunicação de manter uma relação de boa convivência e conforto em seus postos de trabalho. Ou seja, a linha ideológica da notícia nasce não só do perfil intelectual e cultural do jornalista, de suas relações e afinidades ou do seu compromisso social, mas também e sobretudo do tipo de (in)dependência profissional com seu veículo empregador.

De qualquer forma, para a unanimidade dos estudiosos não há isenção na produção de qualquer matéria jornalística, mesmo a que não é rotulada como opinativa. E assim, o ouvinte/leitor recebe o “benefício” do agenda setting para não precisar pensar. Já na década de 20, dizia o Estadão: “Um verdadeiro jornal constitui para o público uma verdadeira bênção. Dispensa-o de formar opiniões e formular ideias. Dá-lhes já feitas e polidas, todos os dias, sem disfarces e sem enfeites, lisas, claras e puras” (Editorial do O Estado de São Paulo, de 14/01/1928).

Pode-se inferir então que um mergulho no “lixo” e nas aparas, e um exame por ângulos e critérios ideológicos diversos no noticiário jornalístico, certamente produziriam caixas de sapatos diferentes da de Bonner. Um mergulho e um exame que serão facultados a qualquer ouvinte/leitor quando o veículo de comunicação lhe oferecer os diversos ângulos e a totalidade dos fatos, para que exerça criticamente sua análise e sua escolha. Será, enfim, a oportunidade de poder formar sua opinião, sua versão dos fatos.

Para que isso aconteça, a sociedade precisa se dar conta de que existe um direito que a Constituição lhe garante: o Direito à Informação. Informação em sua integralidade, que permita acesso a uma leitura crítica, personalizada, liberta das amarras opinativas unidirecionais viciadas. Democraticamente aberta a múltiplas interpretações e juízos. Múltiplas caixas de sapatos...


Um novo olhar

Uma amostragem do que “não aconteceu” (o lixo e as aparas do Bonner) pode ser vista no noticiário dos últimos dias: Na última quinta-feira (24/12), o prestigiado jornal francês Le Monde escolheu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "o homem do ano de 2009. Por seu sucesso à frente de um país tão complexo como o Brasil, por sua preocupação com o desenvolvimento econômico, com a luta contra as desigualdades e com a defesa do meio-ambiente”.

Poucos dias antes, Lula foi escolhido pelo jornal espanhol
El País a primeira das cem personalidades mais importantes do mundo ibero-americano em 2009. Com direto a foto de capa inteira e perfil assinado pelo próprio primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero. "Homem que assombra o mundo", "completo e tenaz", “por quem sinto uma profunda admiração", escreveu o premiê espanhol.

Neste dia 29 de dezembro, o jornal britânico Financial Times escolheu o presidente brasileiro como uma das 50 personalidades que moldaram a última década, porque “é o líder mais popular da história do Brasil”. “Charme e habilidade política... baixa inflação... programas eficientes de transferência de renda...", diz o jornal.

Há nestas notícias da imprensa internacional o reflexo de um novo dia, de um novo tempo de novos sonhos. Um novo olhar do mundo sobre o Brasil. No entanto, para o leitor/ouvinte dos nossos jornalões, simplesmente nada disso aconteceu.

A HISTÓRIA SECRETA DA REDE GLOBO – clique aqui para baixar o livro completo

A HISTÓRIA SECRETA DA REDE GLOBO – clique aqui para baixar o livro completo
É m livro raro, difícil de achar nas livrarias, que está disponível gratuitamente na internet. O livro é resultado da tese de mestrado Universidade de Brasília apresentado pelo jornalista Daniel Herz, em 1983. ”A História Secreta da Rede Globo” aborda a introdução da tecnologia de comunicação no Brasil e de como a Globo, que foi construída com capital estrangeiro, chegou ao poderío de hoje e a promiscuidade com o poder público desde a Ditadura Militar.

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